quinta-feira, abril 02, 2009

Espero que tenham visto a entrevista do António Damásio na RTP hoje à noite (verdadeira oferta de serviço público). É de facto uma mente contagiante e das poucas que transmite uma genuidade na forma de exercer  inteligência, a cada frase, que chega a provocar sentimentos de insegurança e inveja a quem ouve (rapidamente substituídos por admiração).
No momento da inevitável confrontação com a sua erradicação nos EUA nos últimos 30 anos, servida pela Judite, a sua subtileza mas ao mesmo tempo assertividade na resposta deram-me força para me esquivar aos prazeres mundanos da vida por mais uns anos. A possibilidade da discussão aberta, entre pares, de questões científicas com o fim de proporcionar uma evolução significativa dos campos de estudo, com inegáveis benefícios do ego de cada um (ninguém é 100% altruísta), sobrepõem-se inequívocamente a qualquer benefício pessoal (talvez mais vantajoso materialmente) assentado em política, inveja, mesquinhice ou disfunções sociais. 
Tudo isto na mesma semana em que lutas de poder emergem num instituto à beira Douro. "Afinal se o outro chegou lá, porque não eu?", perguntaram dezenas de abutres.

3 comentários:

  1. Ainda que não tenha visto o programa referido, julgo perceber perfeitamente a clarividência de pensamentos e ideias transmitidas por esse senhor. O que mais me faz admirar na sua personalidade (e julgo que a ti e a outros colegas nossos) é que além de seguro no que diz, parece convicto no que faz e na profissão que exerce, sem se esquecer das verdadeiras razões por que o faz (nas antípodas da política, inveja, mesquinhice ou disfunções sociais). A realidade do "meu" instituto plantado à beira rio passa exactamente pelas tuas palavras. Cada vez mais desconheço o que é fazer (boa) ciência , sem me conseguir desenvencilhar da teia demagógica e política em que estou envolto. Confesso que não era nada disto que estava à espera, nem é isto que quero para o meu futuro. Na minha frustração da não aceitação desta realidade, dizem-me (em uníssono) que aqui, ali e noutros empregos e profissões, passa-se exactamente a mesma coisa. A aceitação generalizada deste facto não é por si só a aceitação de que as coisas estão mal e que nada se faz para mudar? Compete à nossa geração mudar? Somos realmente capaz de o fazer? Fui eu que tive azar na minha ainda pequena e particular vivência laboral, ou é um sinal claro e irrefutável de uma voz que diz: CONFORMA-TE!

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  2. Trosyd, claramente a opção conformista não te assenta bem. Uma possível solução é a união com semelhantes. Uma vez consolidada e com um certo grau de independência não tenho a mínima dúvida que essa associação terá muito mais sucesso que a corja. Deve haver gente suficiente em portugal com intenções nobres e moral. O problema são os infiltrados e os agarrados (ao poder) que abundam por aí e frustram tudo e todos. Mais do que adquirir independencia financeira, parece-me extremamente dif'icil adquirir independ^encia institucional e intelectual em Portugal.

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  3. Com muita pena minha, o cenário que vejo é bastante negro! Senão vejamos, um país onde só quem é inútil, vazio de ideias e convicções vai para a politica (os encostados da nação). Um país em que só quem não pode, não se faz valer do compadrio (desmesurado), em que se tem uma visão imediata das merdas e completamente umbiguista, em que não se tem qualquer consciência do bem comum.... é muito difícil! Quanto ao resto já nem falo... ciência ou não, aqui no rectângulo, joga toda a gente com a mesmas regras, feitas ao sabor das vontades dos senhores!
    É mesmo triste e desanimador...
    Joel, a meu ver e estatisticamente falando, o gráfico de independência financeira tendo uma curva ascendente com o tempo, parece-me bastante contrário ao da independência institucional e intelectual em Portugal...infelizmente!
    Conformar-me nunca....com expectativas? já houve melhores dias...

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